Breu

Esperava por ela todas as noites, sentado em frente à solitária e muda televisão.

O luar de prata entrava pelas envergonhadas janelas, espalhando a saudade nos reflexos das nuvens de odor a sargaço.

Tantas e tantas noites de espera. De silêncios. De uma dor que rasga até as almas de betão.

Noites de aperto. Noites de nada. Noites que não se desfizeram das noites em que tudo se iluminava.

Sóis que rasgavam o breu. Sóis dourados e flamejantes que aqueciam os corpos incendiados e derretidos em espessa lava. Sóis e corpos e magma fundindo-se na noite que só era noite para quem dormia.

Noites em que ardiamos na insónia.

Noites de fim sem recomeço.

Noites esquecidas. Noites onde tropeço na espera do que já não vem.

Hoje ainda esperei.

Amanhã já não espero. Amanhã já não te espero.

As noites de lua nova enterraram-se para sempre como chaga no meu peito.

Noites sem aurora. Noites sem vida.

Noites que adormecem sobre a morte do que somos.

Noites que anoitecem.

Noites que não matam o que fomos.

© Balthasar Sete-Sóis

2 comentários em “Breu

  1. Noites, essa ausência de luz e discernimento… Magnífico poema meu amigo.

    Curtir

    1. Balthasar Sete-Sóis 2 de setembro de 2019 — 18:28

      Obrigado meu bom amigo 🤗

      Curtido por 1 pessoa

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