Invisibilidade

Foi ontem, mas mil anos se passaram desde que te vi pela primeira e última vez.

Cravaste-me sorrisos na boca, brilhos nos olhos e descompassaste-me o ritmo cardíaco sem disso te dares conta.

A terra tremeu e as minhas pernas também.

Passaste por mim sem me veres.

Não me viste, nem tu nem ninguém, mas eu perdoo-te.

De jornal enrolado na mão, ocupo, freneticamente, os espaços vazios nesta rua onde me deito, sempre que o dinheiro recolhido cobre o valor da companhia que me afunda na solidão profunda.

E tu passaste sem me ver.

Talvez amanhã, se voltares, eu te pergunte o nome.

Talvez amanhã tenha a coragem de pedir-te a moeda de que hoje fugi.

Talvez…

Mas hoje não. Hoje decidi ser apenas mais um pedaço de nada, mais uma figura invisível que, na madrugada dos dias, morre, lentamente, por entre as gentes que, obedientemente, se arrastam.

© Balthasar Sete-Sóis

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